quarta-feira, 17 de março de 2010

TODOS HIPNOTIZADOS- Uma Perspectiva Nietzschiana do Movimento Punk

                                                                                                                            
              
  

    , Apresentei esse texto no I Seminário de Integração do Mestrado em Filosofia da UFG em outubro de 2009. Fui massacrado, criticado e escurraçado. Galera pegou pesado com meu texto, em acusações de não ter temática filosófica e de trazer um discurso dogmático. Críticas acadêmicas à parte, aqui está minha tentativa de associar a filosofia de Nietzsche com o movimento punk. Confesso estar meio incompleto, mas de qualquer forma: Deixo para os homens comuns julgarem.... 


Todos Hipnotizados

Trago deste mundo
apenas a lembrança
Da
miséria e da fome
Da
derrota e da vitória

Meus amigos foram hipnotizados
por essa vida desgraçada

Senti em minha mão toda a sensação
Eu fui metralhado pelas costas

Por favor, olhe para mim
Por favor, olhe para mim!

(OLHO SECO. Todos Hipnotizados in Grito Suburbano: São Paulo, 1983 Gravações Sem Qualidade)

Todos Hipnotizados!- uma perspectiva nietzschiana do movimento Punk.

 

 

 

 1- Introdução

 

     A Analogia a ser feita  baseia-se em traçar um paralelo das semelhanças entre a ideologia e a cultura punk e alguns aspectos presentes na obra de Nietzsche. Neste texto procuraremos traçar um paralelo entre o movimento punk e a filosofia de Nietzsche no tocante à crítica da sociedade mercantil contida  nos aforismos de Aurora; analisando formalmente os aspectos contidos na literatura punk (zines, livros,revistas, letras de músicas e internet) utilizando obras em livro como A Filosofia do Punk de Craig O´Hara, O que é punk de Antônio Bivar e na letra da canção Systematic Death da banda punk britânica Crass juntamente com os os aforismos de 173 a 179 da obra de Nietzsche, de forma que a se afirmar que este movimento possuí uma íntima ligação com a filosofia nietzschiana no tocante à, à visão política e à moral, assim como às relações de trabalho no mundo moderno, tendo este movimento inclusive utilizado de alguns conceitos dessa crítica de Nietzsche em sua arte e até mesmo na vida prática com a prática do ethos punk: o conceito Do It Yourself, ou DIY.

   O movimento Punk, ou simplesmente punk tem por princípio a recusa à moral burguesa e cristã, expressando sua fúria contra a sociedade através da arte, principalmente da música, e da prática política de resistência ao capitalismo. Com o conceito de Do It Yourself o punk consegue driblar a sociedade de consumo e aponta uma forma de vida e pensamento alternativa ao status quo que através da denominação punk de Sistema engloba vários setores da sociedade que são por este movimento considerados como a principal causa das mazelas da humanidade moderna por estarem enraigados nesses setores os princípios da moral cristã e burguesa, moda moral apontada por Nietzsche como causadora da perda da capacidade humana de se criar e se superar e de sua cultura.

 

    A seguir analisaremos os conceitos citados acima: o conceito nietzchiano de moda moral e os conceitos punks de sistema e do it yourself, para, então passarmos para análise dos aforismos de Aurora.

 

 

 

1.1 A Moda moral de uma sociedade mercantil.

    Em Aurora, Nietzsche define moda moral no aforismo 131 como uma categoria seguida de uma determinada moralidade que varia de acordo com o tempo e a sociedade que a utiliza. De acordo com Nietzsche: “Os grandes prodígios da moralidade antiga, como Epicuro, por exemplo nada sabiam da glorificação do pensar em outros, do viver para os outros, que é agora habitual. De acordo com a nossa moda moral,eles deveriam ser chamados imorais, pois lutaram com todas as forças por seu ego e contra a empatia com os outros ( sobretudo com seus sofrimentos e suas fraquezas morais).” (Nietzsche, Aurora p. 100)

     Para Nietzsche a moda moral vigente é a moda da sociedade mercantil ), que tem por pensamento básico a valoração dos objetos com o objetivo de posteriormente comercializá-los: “Vemos agora surgir,de várias maneiras, a cultura de uma sociedade em que o comércio é a alma, assim como a peleja individual para os antigos gregos, e a guerra e o direito para os romanos. O mercador sabe estimar-lhe o valor de tudo sem produzi-lo e estimar-lhe o valor segundo a necessidade dos consumidores, não segundo suas próprias necessidades; ‘quem e quantos consomem isto?’ é sua grande pergunta. Esse gênero de estimativa ele emprega institivamente e incessantemente para tudo, também para as realizações da arte e da ciência,dos pensadores,doutores,artistas,estadistas, de povos e partidos, de épocas inteiras: em relação a tudo que é produzido ele pergunta pela oferta e a demanda,a fim de estabelecer para si o valor de uma coisa. Isto alçado em caráter de toda uma cultura , pensado com o máximo de amplidão e sutileza, e impondo-se a toda vontade e capacidade.” (Nietzsche p.127-128)

    Este aforismo de Nietzsche foi publicado em 1881 e denuncia a nocividade implícita na nova moralidade mercantil, que transforma tudo que é produzido pelo homem em produto pronto para ser consumido pelos demais, banalizando seu sentido de existir como obra da criatividade e capacidade humana de criar o novo,peculiar apenas a nossa espécie,e não apenas um produto a ser consumido e logo após jogado fora como algo desprovido de utilidade.

   Durante os cem anos seguintes à publicação de Aurora, a sociedade mercantil exposta por Nietzsche tomou de assalto todas as faculdades humanas, assim como o filósofo prevera. A sociedade de consumo foi plenamente desenvolvida em prol daquilo que é vendável, descartando tudo aquilo que não teria, segundo os comerciantes, aceitação comercial. E isso incluiu, como o próprio Nietzsche alega, também a arte. Felizmente, ao contrário do que Nietzsche pensava, a arte não foi totalmente enquadrada na moda moral da sociedade mercantil dividindo-se em duas principais áreas: o  mainstream, ou corrente principal, a corrente comercial que segue a moda moral da sociedade mercantil e transforma a arte em produto pronto para o consumo, definida por O´hara como: “A corrente de pensamento e ideologia predominante por extensão, o que é transmitido e divulgado pela grande mídia como relevante cultural e artisticamente.”(O´hara p.188)

        Em oposição ao mainstream surgiu o underground, “o espaço não cooptado e/ou coberto pela grande mídia - jornais, rádios,TV´s, revistas- onde circula uma produção artística mais comprometida com a arte do que com o comércio.” (O´hara p. 193)

      Desde o fim da Segunda Guerra Mundial que o mainstream e o underground se degladeiam no mundo da arte, da mídia, das relações sociais e da política. O mainstream tem por dispor de um imenso e lucrativo aparato de divulgação a tendência de lançar modas para satisfazer o apetite por novidade de seus consumidores, porém não possuí capacidade artística suficiente para criar, apenas para reproduzir. O mainstream então se utiliza da matéria-prima desenvolvida pelo underground, que tem consigo toda a vanguarda artística, e incorpora seus elementos à sua cultura oficial, quase sempre deturpando todo seu sentido artístico e remodelando-o de acordo com a necessidade dos consumidores, entregando assim ao cidadão comum novas tendências que se utilizam de maneira depreciativa  da arte desenvolvida pelo underground, deixando para este a dura sina de sempre se reinventar para depois ter sua arte confiscada pelo mainstream lançar novas tendências e lucrar com isso. Além disso a tendência da moda sempre tende a suprimir a vanguarda, pois esta quase sempre está em desacordo com os preceitos morais da sociedade de consumo, que vê na glorificação do trabalho e no consumo o exemplo a ser aceito por esta moralidade.

     Para entendermos melhor esta relação citamos o exemplo dado pelo jornalista brasileiro Antonio Bivar, que em 1982 escreveu o volume O Que é Punk da já clássica coleção primeiros passos da editora Brasiliense, quando o autor trata do embate entre o Existencialismo e a alta-costura: “Imagine agora Paris, dois anos depois do fim da Segunda Guerra, 1946 à margem esquerda do Sena. Ali era o quartel-general da juventude “sem futuro” da época. Estudantes, niilistas, poetas, escritores, artistas. E o mundo começava a tomar conhecimento do movimento Existencialista. Para os existencialistas a vida não fazia sentido, a própria existência se provara absurda. Outras guerras viriam e, quais fossem a circunstâncias, todos saíriam perdedores. O som da bomba e a imagem do cogumelo atômico ainda causavam os piores pesadelos. Deus estava morto, discutia-se Metafísica e, no fundo, todos os homens eram mortais. Um movimento que tinha como cabeças Sarte, Simone de Beauvoir, Albert Camus, enfim, o pensamento da jovem esquerda saída da Sorbonne e toda uma intelligentsia- e mais as caves enfumaçadas, a música do jazz, os cafés(...) O mundo tomou conhecimento e, aqui, e ali surgiam os existencialistas locais. Os mais sérios mergulhavam na filosofia do movimento; os mais levianos apelavam para o que o existencialismo tinha de mais óbvio: a moda.

     Fosse moda ou filosofia, as boas famílias da época queriam que seus filhos fossem tudo menos existencialistas. Tudo que é rebelde tem um não-se-quê de excessivo. Excesso de pessimismo, excesso de álcool,excesso de droga. Quando não excesso de violência. E promiscuidade(amor por demais livre). E falta de dinheiro. Sim, porque se o cara pensa ou sonha muito,ele não ganha dinheiro. Assim pensa a família. Mas o Sistema, bom guardião não só das famílias mas de si mesmo, tratou de fazer com o Existencialismo o mesmo que trinta anos depois iria fazer com o punk: se nos anos 70 a contrapartida foi com a discotheque, nos anos 40 o “corte” foi via alta costura.” (Bivar p. 9-10)

 

   Então sempre que a sociedade de mercadores se sentia ameaçada pela rebeldia dos jovens logo tratava de inventar ou copiar uma moda para driblar a rebeldia. Isso quando não colocava a polícia nas ruas em prontidão para espancar jovens tidos como esquisitos. Foi assim nos anos 50 com os beats e nos anos 60 com os hippies e na década de 70 com os punks. Porém no final da década de 70 o punk se estabelecia e com ele um duro golpe na sociedade de mercadores: não interessava ao punk fazer parte da cultura oficial, ao contrário de seus predecessores, o punk queria por princípio moral permanecer no underground mantendo-se como movimento crítico a sociedade  Não se tratava apenas de conflitos de geração ou de aceitação pela sociedade oficial como os movimentos contraculturais que o precederam. O punk queria se manter fora da sociedade e viver por suas próprias regras e, assim desenvolveu um ethos próprio capaz de permanecer alheio a cultura oficial. A esse ethos  punk chamou-se Do It Yourself. Assim como, criticando o caráter efêmero e descartável da sociedade de consumo, Nietzsche ironiza no aforismo 175 de Aurora: “é disso que vocês homens do próximo século estarão orgulhosos: se os profetas da classe mercadora tiverem razão em coloca-lo na sua posse! Mas eu tenho pouca fé em tais profetas”(Nietzsche p.128) os punks também tinham pouca fé nestes profetas, aliás, fé nenhuma.

1.2. Do It Yourself

     Desde o início o punk se utilizou-se do do it yourself para lançar discos, obras de arte e filmes, além de fabricarem utensílios domésticos,roupas e até sua própria comida- que a maioria das bandas e pessoas envolvidas diretamente com o punk adotam o DIY  como modo de realização de seus projetos artísticos e políticos lançando assim seus próprios discos, meios de comunicação (livros,zines,panfletos), organizando suas próprias apresentações e protestos e, além disso o DIY tem sido constantemente aplicado a ações do dia a dia, como uma forma de anticonsumismo calcada no princípio de apenas consumir algo quando a necessidade for terminantemente iminente. “A ética motriz por trás dos esforços mais sinceros do punk é o DIY-Do It Yourself. Não precisamos depender dos ricos homens de negócios para organizar nossa diversão e lucrar com ela- podemos fazê-lo nós mesmos, sem visar ao lucro.Nós, punks, podemos organizar shows e passeatas,lançar discos,publicar livros e fanzines,distribuir nossos produtos via mala direta,dirigir lojas de discos,distribuir literatura,estimular boicotes e participar de atividades políticas.Fazemos todas essas coisas e as fazemos bem.Alguma outra contracultura de jovens dos anos 80 e 90 pode afirmar que faz tudo isso?”(O´hara, p151)

 

1.3 Sistema

     O punk compreende sistema por uma hierarquia superior em questão de poder que escraviza e domina o homem comum através do trabalho e do entretenimento de massa o impendindo de criar, criticar e até mesmo pensar por si próprio. O sistema é na verdade a moda moral da sociedade de mercadores exposta por Nietzsche, que tem por base a moral cristã e a moral burguesa;sendo imposta por grupos que detém o poder econômico buscando transformar o cidadão comum em um mero consumidor conformista que não tem controle sobre suas ações e decisões, acreditando então naquilo que lhes é mostrado como verdadeiro pelos defensores do sistema. Por defensores do sistema se compreendem todas as instituições que detém poder político e econômico: políticos,militares, a igreja e as multicorporações. Para manipular os pensamentos e reprimir atos de crítica e subversão, os defensores dos sistema se utilizam das chamadas ferramentas do sistema: a mídia de massa e a polícia.

        As pessoas comum que vivem de acordo com o que é ditado pelo sistema são chamadas pelos punks de conformistas; segundo Craig O´hara:

   “ Os punks questionam o conformismo não apenas por parecerem e soarem diferentes, mas para colocar em xeque os modos de pensar predominantes. O conformismo não se questiona sobre aspectos como trabalho, raça, sexo e sobre si mesmo porque suas idéias são determinadas por aqueles que o cercam. Já o não-conformista não se apoia nos outros para determinar sua própria realidade.

        O questionamento do conformismo também envolve questionamento de autoridade. Os punks não têm muito respeito por autoridade de qualquer espécie ( nota do brogui: idéia um pouco oposta à de Nietzsche, para quem a hierarquia não é necessariamente um problema. Reconhecer que o outro pode ter mais ou menos algo, não necessariamente é um problema. Pode ser inclusive um reconhecimento necessário para alguma superação...). Em geral, a autoridade forçada  é considerada um grande agente causador do mal. Desde os alemães nazistas na Segunda Guerra, passando pelas vítimas de tratamento de choque de Stanley Migram, até a força policial de hoje, ficou provado que a obediência injustificada à autoridade resultou na aceitação em massa de atos nocivos.

       Agindo como não-conformistas antiautoritários, os punks não são muito bem tratados por aqueles cujos comandos para se conformar são rejeitados. Nossa sociedade, bem experimentada no duplipensar e na imagem do bode expiatório, tem usado a linguagem para criar uma imagem negativa daqueles que buscam os meios não-conformistas.” (O´Hara p. 34)

      Conforme diz O´Hara o punk ameaça a paz e a segurança da sociedade com seu não-conformismo, e por fazer com que os jovens comecem, através do movimento, a questionarem à moda moral vigente e não aceitarem nem o consumo deliberado nem a glorificação ao trabalho, este é tratado como escória da sociedade e como mau exemplo, tendo assim que travar uma enorme luta contra a sociedade de consumo em troca de sua liberdade para agir e pensar de forma diferente ao padrão. 

     Nietzsche diz no aforismo 174 de Aurora que “apenas as ações que têm em mira a segurança comum e o sentimento de segurança da comunidade merecem o predicado de bom”, isto porque o filósofo vê a temeridade como pano de fundo do princípio básico da atual moda moral que é o de que as “ações morais são as ações da simpatia pelos outros”. O que vem a justificar a marginalização do punk perante a atual sociedade, pois este como rejeita essa moral é taxado pelo senso comum de desordeiro, vagabundo, pária e visto como uma ameaça à segurança da sociedade por seu visual agressivo e suas idéias subversivas que levam jovens acostumados a obedecerem à moral estabelecida a questionarem-na.

     No aforismo 178 de Aurora Nietzsche faz uma crítica semelhante à apresentada pelo punk a este mesmo aspecto do conformismo; os cotidianamente usados: “A esses jovens não falta caráter, nem talento, nem diligência: mas nunca les deixaram tempo para dar a si mesmos uma direção; pelo contrário, desde a infância foram habituados a receber uma direção. Quando estavam maduros o bastante para serem “enviados” para o deserto”, foi feito algo diferente- foram utilizados, foram afastados de si mesmos, instruídos para serem  usados cotidianamente, ensinados a enxergar nisso um dever- e agora não podem mais dispensar isso, e não querem que seja diferente. Apenas não se pode negar, a esses pobres animais de tiro, as suas “férias”- como é chamado o ideal de ócio de um século sobrecarregado: quando se pode folgar e ser estúpido e infantil à vontade”.


 Um exemplo de o que o sistema significa é para o punk pode ser observado na letra da canção Systematic Death da banda inglesa Crass, que conta a história de um cidadão moderno do berço até a morte sobde um ponto de vista crítico:

 

Morte Sistemática


 Sistema,sistema,sistema


A morte em vida
 
Sistema,sistema,sistema

A faca do cirurgiao
Sistema,sistema,sistema

Pendurado pelo cordão

Sistema, sistema,sistema

Uma criança nasceu
 

Pobre fodidinho, pobre criancinha,

Nunca pediu pela vida, não ela nunca.
Pobre bebezinho, pobre pequenino
Chorando
por comida enquanto seus pais brigam!

 

Sistema, sistema,sistema
Mande- o
para a escola.
Sistema...

Force-o a engatinhar
Sistema….
Ensine-o a
trapacear
Sistema...

Derrube-o chutando.

Pobre estudantezinho, pobre pirralhino

Eles vão animá-lo se ele for bom e espancá-lo se for mal!

Pobre criancinha, pobre camaradinha

Eles alimentarão sua mente à força com sua merda inútil
 
Sistema

Vão ensiná-la a cozinhar

Sistema

Ensiná-la a se produzir.
Sistema

Ensina-la todos os truques

Sistema

Criar outra vítima para seus canalhas sebosos.

Pobre garotinha, pobre pequena submissa,

Outro pequeno objeto para cutucar e beliscar.

Pobre docinho, pobre potrinha,

Vão foder com sua mente para poder foder sua xoxota!

Sistema…

Ele cresceu para ser um homem

Sistema....

Ensinado a se encaixar.
Sistema…
Quarenta
anos de serviço.
Sistema…

Apertando botõezinhos, girando seletores.

 

Pobre trabalhador, pobre pequeno servo

Trabalhando como uma mula por metade do que valhe.

Pobre enxertado, pobre senhorzinho

Trabalhando pelo dinheiro que já gastou!

 

Ele está vendendo sua vida

Ela é sua leal esposa

Tímida como um rato

Ela tem sua casinha

Ele tem o seu carrinho

E Eles compartilham o bar de cocktails.

Ela gosta de cozinhar a comida delea

Você sabe, algo que seduza.

As vezes ele trabalha até mais tarde

Então seu jantar tem de esperar

Mas ela não se importa

Pois ele está ganhando hora-extra

Ele gosta de poupar um pouco

Apenas para aquele dia chuvoso

Porque cada pouquinho conta

Para se chegar a um montão

Jogam na loteria toda semana

A espera daquele golpe de sorte

Pra então eles viajarem pra fora

Fazer todas as coisas que não podem custear

Ela realmente gostaria de um casaco de peles,

Ele de um carro maior

Eles poderiam comprar um sítio

Com uma porta Georgeana para se exibir

Ele pode até pensar em sair do emprego,

Mas não, ele não gostaria de não cumprir as obrigações

Ele prefere ficar

E receber seu pagamento honesto

Ele tem uma vida de trabalho pela frente

Não há descanso para os mortos

Ela tenta fazer tudo ficar suportável

Ele diz obrigado de vez em quando.

 

 

Sistema....

Privados de qualquer esperança

Sistema...

Ensinados a “não estar a altura”

Sistema...

Escravos desde o começo

Sistema

Até que a morte os separe

 

Pobres Coitados, que casal infeliz!

Tiveram suas vidas roubadas, mas eles não se importaram

Pobres queridinhos, apenas pessoas ordinárias

Vítimas do sistema e de suas piadas cruéis

 

O casal vê os escombros

E sonhos do lar, doce,lar

Eles quase tinham conseguido pagar a hipoteca

Quando o sistema jogou sua bomba!.

(CRASS, Systematic Death in Penis Envy: Londres. Crass Records,1981)

   Como podemos notar na letra da canção do Crass se traça uma crítica sensata aos valores da moda moral em voga. Desde o nascimento até a morte dos personagens da canção se percebe no tom sujo e sarcástico das palavras utilizadas toda repulsa do punk pelos valores mercantis e cristãos, além de apontar para a crítica à glorificação do trabalho, ao sonho consumista de poder ter além daquilo que necessita, e ao comportamento social guiado pela moda moral da sociedade mercantil. Nota-se também a critica ao machismo e à educação que são fatores sociais também derivados desta moda moral. O punk prova assim ser não apenas um grito de rebeldia juvenil, mas um movimento sério capaz de assim como Nietzche fez em seu tempo, captar todo o espírito cínico de seu tempo e convidar a humanidade à reflexão sobre os perigos da moda moral em voga, apontando, inclusive, um caminho de resistência através da ação.

 

 


2- Bibliografia

 

     NIETZSCHE, Friederich. Aurora

 

     O´HARA, Craig. A Filosofia do Punk.

 

     BIVAR, Antônio. O Que é Punk? Col. Primeiros passos


 


terça-feira, 16 de março de 2010

Entrevista com MASTER



Galera de Goiânia depois do show!



Entrevista - Paul Speckmann, vocalista/baixista do Master – Data: 13/02

por Guilherme Gonçalves
fotos: Paula Parreira/Beerblog


Paul Speckmann nasceu do dia 28 de janeiro de 1963 e é uma verdadeira lenda do underground mundial. . Aos quarenta e seis anos, pode se gabar de ter, ao menos, vinte e sete deles dedicados ao Heavy Metal. Seja tocando em diversas bandas e projetos paralelos ou até excursionando como roadie e organizando shows, Paul é um amante confesso da música extrema e não titubeou em conversar conosco sobre diversos assuntos, dentre eles: a Masters of Hate Tour 2010, a trajetória do Master, seu envolvimento com a cena e várias curiosidades que cercam sua história. Confira:


1- O.k. Paul, vamos começar falando um pouco sobre a Masters of Hate Tour 2010. Trata-se de uma turnê um tanto quanto extensa. Foram agendadas aproximadamente vinte e duas datas e com alguns cancelamentos e novos shows marcados temos algo em torno de vinte cidades recebendo o Master, incluindo algumas cidades do interior, certo? O que você pode nos falar sobre como vem sendo essa grande turnê logo na primeira vez em que o Master toca no Brasil?

Paul Speckmann: Nós estamos tendo vários bons momentos. São diversos shows, diversas pessoas interessantes que estamos conhecendo. Na verdade, o que acontece também é que vários shows são em cidades bem distantes umas das outras. Estamos viajando, em média, cerca de doze horas para alguns shows. Então chegamos para tocar e fazemos valer a pena. O público tem sido bom, as pessoas que conhecemos também. O surpreendente é que várias trazem discos antigos e outros itens do Master pra autografarmos. Coisas de 1990, 1991. Isso me deixa feliz. Há muitas pessoas legais no Brasil.

2- Durante o primeiro mês da turnê vocês passaram por uma situação chata, o falecimento de dois membros do After Death: o guitarrista Leon Villalba e o baixista Timothy Kennely. O que os levou a continuar com os shows? O respeito ao público... a vontade de seguir tocando...

Paul: Certamente. E você sabe, o show tem que continuar. Em algumas noite dedicamos os shows aos dois. Eram jovens excelentes e músicos muito competentes. Tivemos vários bons momentos com eles nas primeiras semanas de turnê. Foi uma tragédia. O que posso falar é que estamos tentando ajudar as famílias e que, com certeza, farão falta no restante da turnê. Tivemos bons momentos.





3- Paul, falemos agora um pouco sobre o início do Master. Vocês começaram em 1983, mas os primeiros discos oficiais – Master e On The Seventh Day God Created... Master - vieram apenas em 1990 e 1991. Qual o motivo para essa demora em gravar?


Paul: Porque nosso baterista era um desgraçado!(risos) Então decidi sair e formar uma nova banda chamada Funeral Bitch, depois outra banda, chamada Abomination. Na verdade, o primeiro contrato com uma gravadora para gravarmos foi com o
Abomination. Só depois me perguntaram sobre o Master e eu decidi gravar com as duas bandas e lançar o split Master/Abomination. Eu fiquei tocando com as duas bandas pelos Estados Unidos e ainda tinha um emprego fixo. Não tinha descanso, trabalhava o tempo inteiro!(risos)

4- Existe um boato de no início da banda você testou mais de vinte e seis guitarristas diferentes. É verdade?

Paul: Sim, é verdade. Ninguém em Chicago encaixava. Ou eles não tinham a cara da banda ou não conseguiam tocar as músicas. E o Master sempre teve uma postura, uma atitude, um certo sentimento e se você não se encaixa em todos esses quesitos, nós não estamos interessados. Levamos um bom tempo até encontrar o cara certo.

5- E o que você procurava? Como deveria ser o cara certo?

Paul: Cabeludo, excêntrico e que tocasse muito bem! (risos)

6- E como você classifica o Death Metal praticado pelo Master? Trata-se de algo entre Motörhead, Venom e Slayer? Quais são suas outras influências?

Paul: GBH, Minor Threat, The Exploited, Discharge. Pra mim, o Master tem ainda mais de Punk Rock do que dessas bandas. É claro que amo Motörhead, Slayer... os três primeiros álbuns do Metallica. Mas a banda é muito mais influenciada pelo Punk Rock.

7- Depois de todos esses anos, o que te faz continuar tocando Metal, seja como baixista, como vocalista do Master?

Paul: Eu só amo subir no palco. Eu vivo no palco. Adoro e transformo isso em um modo de vida. Não me faz ficar rico, mas me faz viver da minha música. Quando não estou em turnê com o Master, saiu em turnê com outras bandas vendendo merchandise, trabalhando como roadie... Bandas como Vital Remais, Dissection, Benediction. Várias bandas. Estou na cena até hoje porque amo o Metal, cara. É meu modo de vida. Há vinte cinco anos, decidi que seria Metal pra sempre. E é o que estou fazendo. É o que faço até hoje e estou agora no Brasil por isso.

8- Paul, onde você mora hoje em dia?

Paul: Na República Tcheca. Numa pequena cidade. É maravilhoso.

9– Você ainda toca no Krabathor?

Paul: Toquei no Krabathor durante quatro anos, gravamos dois álbuns. Mas o guitarrista mudou para os Estados Unidos há alguns anos e não tocamos mais. A banda está parada.

10- No show de hoje vocês não tocarão músicas do novo álbum, The Human Machine, certo?

Paul: Não, ainda não tivemos tempo para ensaiar as novas músicas. Gravamos o álbum há cinco semanas, a uma semana do início da turnê. O baterista que veio para estrada, inclusive, é outro.

11- Haverá músicas de quais discos? E qual é o seu favorito?

Paul: Haverá música de quase todos. Do Slaves to Society e também dos antigos. Qual é o meu favorito? É difícil dizer, porque todos eles têm pontos positivos e negativos. Em alguns tínhamos mais dinheiro disponível, em outros mais tempo para gravar. Mas acredito que todos são nossas obras de arte. Gosto do On The Seventh Day God Created... Master. Collection of Souls também é um bom disco. Tentamos colocar sempre as melhores músicas. Algumas soam boas, outras não. E é pelo que disse. Às vezes temos mais tempo, às vezes temos mais dinheiro, um melhor produtor... Mas todos os discos são pedaços da minha história e partes da minha vida. Quando os ouço e leio as letras vejo que todos estão conectados com a forma que era minha vida ou como estava o mundo naquele momento. Então as boas e as más lembranças estão em todos eles.

12- Pra finalizar Paul, você consegue apontar algum motivo para o fato de o Master não ter se tornado uma banda tão reconhecida e estar ao lado de nomes como Obituary, Morbid Angel, Possessed, inclusive na cena Death Metal?

Paul: Sim. Porque nós não lançamos um álbum em 1984, como deveríamos ter feito. Se tivéssemos feito isso, talvez seríamos uma das maiores bandas do Metal hoje em dia. Mas não lançamos.

13- Justamente. Penso que os três primeiros discos do Master não ficam atrás de petardos como Slowly We Rot, Cause Of Death, Altars of Madness, etc...

Paul: Eu sei disso. Nós nunca tivemos a divulgação que eles tiveram. Foi muito difícil pra eu manter a banda unida e ativa. Estavam todos preocupados com drogas e em ganhar dinheiro.

14: Nos anos 90, a cena se tornou mais difícil?

Paul: Sim... ficou mais difícil, é verdade. Se tivéssemos tido a divulgação que essas bandas tiveram, talvez as coisas teriam se encaixado melhor. Mas isso não aconteceu e mudávamos de formação quase todo ano naquela época porque vários estavam preocupados apenas em ganhar dinheiro. E nessa música que tocamos, você não fica rico. Ao menos que você seja o Cannibal Corpse, por exemplo! (risos)


Baixe:


MASTER- MASTER






domingo, 14 de março de 2010

Entrevista: Coerência



      Ae povo, meio sumido sim, mas continuamos na ativa e pra provar isso vamos iniciar uma série de entrevistas com bandas goianas, feitas pelo blog, na verdade pela Lanna que é nossa mais nova colaboradora (kkkkkkkkkkk). A primeira banda escolhida é uma banda nova que soa como velha, pois possui integrantes de finadas bandas do cenário punk/hardcore daqui, como Chef Wongs e Duup. Essa banda é o Coerência que há pouco tempo na ativa já vem conquistando destaque no cenário tosco goianiense. Então sem mais delongas... Coerência:

Quando a banda se formou?

 

Exatamente não me recordo. Em 2008 já ensaiávamos. Esses primeiros ensaios tiveram mais a função de nos auto apresentar musicalmente, e rolar uma intimidade sonora entre a gente. Desde então começaram as composições.

 

Coerência! De onde surgiu o nome?

 

A idéia de nome apareceu depois de vários meses de ensaio, junto com outros que iam aparecendo na medida em que o tempo passava. E esse nome, talvez, foi o que resistiu e quando vimos já era esse mesmo.  No começo não era consenso, mas acho que isso foi sendo construído no nosso dia a dia, e quando percebemos o nome já era parte conceitual da banda e já ajudava a pensar letras, artes, idéias e tudo mais relacionado as nossas ações. Então é mais interessante pensar que esse nome cresceu com a gente, e não surgiu.    

 

Qual é a visão de vocês em relação ao Hardcore goiano, e quais as metas da banda em relação a isso?

 

Certamente temos visões e relações diversas no que se refere ao Hardcore. Temos interesses diversos, posturas diferentes e esperamos certas coisas que nem sempre são as mesmas. Isso é saudável, acho que na medida do possível vamos construindo consenso e formando meios pra atingir objetivos comuns. Mesmo quando fica complicado dar voz a determinada vontade que você quer muito exprimir, é preciso segurar e guardar pra uma hora mais apropriada.

Acho que não temos uma visão formada sobre o hardcore goianiense. Mas tenho alguns caminhos pra pensar isso. Acho que falta debate, tolerância, se colocar no lugar do outro, compreensão e, sobretudo, admitir que existem um número N de hardcores, não existe “O HARDCORE”, isso me soa como um egoísmo tremendo. E aqui acho que existe um consenso entre a banda, temos um interesse em debater essas questões, mostrar que o tal hardcore não está pronto e acabado, mas se encontra em uma relação constante de construção.

Agora em uma perspectiva mais prática e logística, o hardcore precisa se aprimorar muito no sentido de organização pragmática mesmo. O que pretendemos fazer em relação a isso é ensaiar constantemente, disputar espaços em eventos em pé de igualdade com outras bandas da cidade, seja ela em qualquer estilo. Ações no sentido de organizarmos nossos próprios shows, proporcionando intercâmbio com bandas que gostamos e que nos influencia, e portanto, sair de Goiânia e estabelecer contato com outras cidades. Enfim, pensar mecanismos que nos permitam respirar e fazer com que nossa música esteja mais acessível pra quem se interessar. E isso já vem acontecendo.

 

Algum dos integrantes são straight edge, rola algum preconceito interno e externo em relação a isso?

 

Exemplo prático: O Raphael diz que se alguém tocar com o X na mão (símbolo clássico dos straight edge) ele toca bêbado e escrito “desgraça” no peito. Então assim, além de engraçado é uma situação onde duas idéias são legítimas e podem ter voz em um mesmo espaço. É uma questão ideológica, e o polemismo toma conta, e as piadinhas soam muito como preconceito sim. Acho que a necessidade de julgar o diferente sem critério nenhum hoje é muito comum, então as pessoas que resolvem tomar alguma posição, certamente enfrentarão preconceitos. Mas acho que o fato de beber ou não beber é importante pra alguns grupos específicos, e se alguém quiser compreender essas duas ações basta analisar os contextos de surgimento, as propostas e compreender o por que. E verá que não tem nada de anormal seja de um lado ou de outro.

 

Quais são as fontes de inspiração para as letras?

 

Acho inspiração uma palavrinha muito picareta. Me soa um sentido de magia, como do nada a tal inspiração viesse e você firmasse até ela permitir, e aguardar ela voltar pra escrever mais. Prefiro “exercício de estranhamento”. Não temos grandes eventos que proporcionam uma comoção e pedem um determinado texto, e muitas coisas estão na cara mas quem escreve insiste bater na mesma tecla, gerando um mais do mesmo tedioso.   Acho que o lance é você todos os dias estranhar suas práticas, suas estruturas de pensamento, e isso faz com que você perceba coisas quem nem sempre foram tão claras, e isso é uma matéria que me impressiona, logo me da gosto de escrever. Escrever sobre escrever, escrever sobre como se organizar suas idéias, escrever sobre o que escrever e como escrever. Escrever sobre o que as pessoas escrevem. São problemas que gosto de tentar compartilhar com as pessoas que possivelmente vão nos escutar.


Contato: www.myspace.com/coerencia

               coerencia@myspace.com


               

                

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Garrafa Vazia(2010)

Garrafa Vazia




Garrafa Vazia é o punk cachaça direto da roça. Punk cru em e sem frescura, feito em Rio Claro, inteiror de São Paulo. O projeto de começar a rolar uma podreira começou em 98. Mas só fomos gravar a primeira demo mesmo em dezembro de 2009.

A formação atual do Garrafa Vazia é:

Mariones - baixo/voz
Rato - guitarra/voz
Gnomo - bateria/backing 

Agenda de shows, roubadas e pileques de cachaça em: http://www.myspace.com/GARRAFAVAZIA

E saquem também o blog do Mariones que é foda pra carai: 



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domingo, 7 de fevereiro de 2010

Entrevista com Bob Dylan- Revista Bizz nº7 (1986)


     45 anos de controvérsia sem perder a pose. Você ama ou odeia ele. O primeiro trovador da era do rock. O primeiro vendido da era do rock. O cara que pôs guitarra no folk. O cara que pôs um pros Beatles. O cara que mudou o mundo, o único que conseguiu de fato mudar o mundo com sua "voz chata e rinitente", seu violão e sua gaitinha. Não precisou mais que isso pra implodir a revolução nos anos 60. Talvez a resposta pra isso tudo esteja soprando no vento, porque os tempos estão mudando e afinal o trem vem vindo devagar e entender essa figura e sua importância talvez nem caiba aos meros mortais. Porém, ele soube como ninguém elevar o espírito do Rock n´Roll a outro patamar. Robert Allen Zimmerman ensinou o rock a pensar, a falar o que pensa e continuar de pé para sustentar isso. Segue a entrevista..... Revista Bizz nº 7 fevereiro de 1986.

   Poeta laureado, profeta num casaco de motoqueiro. Vagabundo misterioso. Napoleão em andrajos. Um judeu. Um cristão. Um milhão de contradições. Um completo desconhecido, como uma pedra rolante.
    Foi analisado, classificado, categorizado, crucificado, definido, dissecado, inspecionado e rejeitado, mas nunca completamente entendido.
     
    Ele entrou na mitologia em 1961, com uma guitarra e uma gaita de boca, um cruzamento entre Woody Guthrie e Little Richard. Era o primeiro cantor de folk punk. Introduziu a música de protesto no rock. Tomou as palavras mais importantes que a melodia, mais importantes que a batida. Sua voz enfumaçada e nasal e seu fraseado sexy são únicos. Pode escrever canções surrealistas com uma lógica toda própria e, com a mesma facilidade, baladas simples, vindas diretamente do coração. Pode tirar a escuridão da noite e pintar o dia claro de escuro.
 
   Ele provavelmente poderia ter se tornado o maior símbolo sexual desde Elvis, mas não optou por isso. Depois veio Mick Jagger. Os Stones, Beatles, Jim Morrison, Janis Joplin, Jimi Hendrix, todos lhes prestaram homenagem.

   No auge do flower power, quando todo mundo embarcava na onda orientalista, Dylan foi para o  Muro das Lamentações, em Jerusalém. Uma década depois, era um cristão novo, ou assim o parecia, gravando discos com canções religiosas. Não é que Dylan subitamente tenha se tornado menos político ou mais espiritual. As referências bíblicas sempre estiveram em suas canções. Quem sabe? Suponha que uma revolução espiritual esteja em curso e que o rock seja apenas um prelúdio de alguma coisa mais. Quem seria um melor profeta que Dylan?

  Dylan é como um de seus versos. Vive simplesmente, numa casa confortável numa propriedade escondida na Califórnia, com um bando de galinhas, cavalos e cachorros. O fato de que está mais visível agora e fazendo coisas comuns, como ganhar Grammies, fazer vídeos e mesmo esta entrevista, não o torna menos misterioso.
 
   Apenas aumenta o mistério.

   (Nota do brógui: Essa entrevista foi formatada de um jeito diferente, ao invés do clichê de perguntas e respostas, o autor preferiu separá-la em tópicos.)

   
                                                  O verdadeiro eu

    Às vezes o "você" em minhas canções sou eu falando comigo. Em outras vezes, posso estar falando com outra pessoa. Se eu estiver falando comigo numa música, não vou parar tudo no meio e dizer: OK, estou falando com você. Você é que tem de adivinhar quem é quem Uma porção de vezes, é "você" falando com "você". O "eu", como em "eu e eu", também muda. Pode ser eu, ou poderia ser o " eu" que me criou. e, ainda poderia ser outra pessoa que está dizendo "eu". Quando digo "eu" neste momento não sei de quem estou falando.

                                         Se você quer falar comigo, vá em frente e fale

    Um monte de gente da imprensa quer falar comigo, mas nunca o faz, e por alguma razão há este grande mistério. E me culpam. Vende jornais, eu acho. Notícias são um negócio. Não tem nada que ver comigo pessoalmente, por isso eu não entro mesmo nessa. Quando penso em mistério, não penso em mim mesmo. Penso no universo, coisas como por que a lua sobe quando o sol some? Ou, por que as lagartas viram borboletas?
     
     Não gosto de falr sobre mim mesmo. As coisas que tenho a dizer, sobre assuntos como favelas, salvação e pecado, desejo, criminosos à solta e crianças sem esperança, isto as pessoas não gostam de publicar. De qualquer maneira, eu não tenho normalmente qualquer resposta para as perguntas que elas publicaram.

                                                      Problemas com o videoclip

      Os vídeos para mim não têm personalidade. Tudo bem com os últimos que fiz com o Dave Stewart (Eurythmics). Nos outros não sei, só recebia ordens. Não dei muita atenção a esses vídeos. Você tem de fazê-los se grava discos. Tem mesmo. Mas tem de tocar ao vivo. Não dá para se esconder atrás dos vídeos. Acho que, quando esta onda de vídeo diminuir, as pessoas vão saber quem toca ao vivo e quem não.

                                                        Highway 61 Revisited


         Todo o tempo as pessoas me perguntaram sobre os anos 60. Se você quiser saber sobre os anos 60m leia Armies of the Night de Norman Mailer, ou leia Marshall Mc Luhan ou Abraham Maslow. Muitas pessoas escreveram de maneira intrigante sobre os anos 60 e falaram a verdade. Os cantores foram apenas uma parte disso. Eu não tenho tanto a dizer a eles. Lembro com muita clareza de algumas coisas. Outras são um tanto embaçadas, mas eu consigo focar onde estava e o que estava fazendo, se for forçado a isto. É claro que há pessoas que conseguem se lembrar das coisas em detalhes vívidos.  Ginsberg tem este talento e Kerouac tinha muito este talento. Kerouac nunca se esquecia de nada, por isso poderia escrever qualquer coisa.


                                        
                                         Pesadelo motopsíquico
            
          Em 1966 sofri um acidente de moto e acabei com diversas vértebras quebradas e uma concussão. Isto me derrubou por um tempo. Eu não podia continuar fazendo o que vinha fazendo. Eu estava muito ferido antes do acidente acontecer.  Ele me assentou, e eu consegui ver as coisas de uma perspectiva melhor. Eu não estava sendo nada em qualquer espécie de perspectiva. Eu provavelmente acabaria morrendo se prosseguisse do jeito que vinha vindo.

                                           Blowin´in the wind
                 
                A política mudou. O tema mudou. Na década de 60, havia um monte de gente saindo de escolas onde haviam aprendido política com professores que eram pensadores políticos, e estas pessoas ocuparam as ruas. A política que aprendi, aprendi nas ruas, porque era parte do meio ambiente. Eu não sei onde as pessoas ouviriam estas coisas agora. Agora cada um quer ficar na sua. Não há unidade. Há o dia da marcha dos porto-riquenhos, o dia dos poloneses, a semana alemã, o dia da marcha dos mexicanos. Você tem todos estes tipos diferentes de pessoas agitando suas próprias bandeiras, e não há unidade entre todas essas pessoas. Pelo que posso ver, esta é a diferença entre aquela época e agora.

                                      O que eu mesmo quero fazer

                
   Enquanto eu continuar gravando e tocando, o que ainda não acabei de fazer, tenho que acompanhar o panorama do momento. Nao sou um Pete Seeger. Já fiz aquilo uma vez ou outra, quando levei duas, três mil pessoas através de minhas músicas, mas não fiz como o Pete Seeger. Ele é um mestre nisso, a levar uma massa de gente a cantar uma música que nem está em sua linguagem. Eu acho que ele poderia ter com as pessoas a força que Sting tem, porque poderia fazê-las sentir que importam, que fazem sentido para elas mesmas e que estão contribuindo com alguma coisa. Ver Tears for Fears é como ser espectador numa partida de futebol. Pete é quase que um curandeiro tribal. Os performers do rock não são assim. Eles estão só realizando as fantasias dos outros.


                                                          As grandes revelações

                       Quando alguém faz uma coisa em grande estilo, é sempre rejeitada em casa e aceita em outro lugar. Isto poderia, por exemplo, ser aplicado a Buda. Quem foi Buda? Um indiano. E quem sao os budistas? Chineses, japoneses, povos da Ásia. É a mesma coisa com o fato de Jesus ser um judeu. A quem ele atraía? Atrai pessoas que querem entrar no céu em grande estilo. Mas algum dia a verdadeira história vai se revelar, e por esta época as pessoas estarão prontas para ela, porque as coisas caminham nesta direção. Você pode até sair dizendo isto agora, mas o que importa? Vai acontecer de qualquer jeito.

                                                    O primeiro som elétrico
 
                         A primeira vez que toquei um som elétrico na frente de um grande público foi no Newport Folk Festival, em 1965. Mas eu tinha um disco de suceso nas lojas (Bringing it All Back Home), e por isso não sabia por que as pessoas esperavam que eu fizesse algo diferente. Eu tinha consciência de que tinha gente brigando na platéia, mas não conseguia entender. Fiquei um tanto embaraçado com a bagunça, porque ela aconteceu por razões erradas. Quer dizer, você pode fazer algumas coisas lastimáveis na vida e as pessoas vão te perdoar. Daí você faz algo que considera nada mais que natural e as pessoas reagem com este comportamento agressivo. Mas eu não dou muita atenção a isto.

             
                                                 Minha vida é um livro aberto

                      Fora uma canção como Positively 4th Street, extremamente unidimensional
, e que eu gosto, não costumo normalmente me purgar escrevendo sobre qualquer tipo de,digamos assim, relacionamento. Eu não tenho os tipos de relações baseadas em mentiras; não que eu nao as tenha tido. Tive tantas quanto todo mundo, só que não as tenho há muito tempo. De maneira geral, as coisas entre mim e outra pessoa são cara a cara. Do tipo minha vida é um livro aberto. E eu escolho estar envolvido com as pesoas com as quais estou envolvido. Elas não me escolhem.

                                           Outro lado de Dylan
                          
                      Nunca li Freud. Nada do que ele disse jamais me atraiu, e aco que ele iniciou um montão de nonsense com este negócio de psiquiatria. Não acredito que a psiquiatria ajude ou já tenha ajudado alguém. Acho que esta é uma grande fraude(sem trocadilhos) com o público. Bilhões de dólares trocaram de mãos, e poderiam ter sido usados para propósitos melhores. Um montão de gente tem problemas com seus pais até os  50, 60 ou 70 anos. Não conseguem se livrar dos seus pais. Como na música de John Lennon, "Mother": "Mãe, eu tive você, mas você nunca me teve". Não consigo imaginar isto. Sei que muitas pessoas têm este problema. É claro que tem uma orção e órfãos no mundo. Mas esta não é minha experiência. Tenho uma forte identificação com os órfãos, mas fui educado por pessoas que sentem que os pais, sejam casados ou não, devem ser responsáveis por seus filhos, que os filhos devem aprender um ofício, e que os pais devem ser punidos pelos crimes de seus filhos.
                
                Na verdade, fui criado mais por minha avó. Era uma mulher fantástica. Eu a amava tanto e sinto muito a falta dela. Mas, voltando um pouco, tudo tem de ser chacoalhado, e será. Nunca tive quaisquer barreiras para chegar no que me era querido. Se eu tinha qualquer vantagem sobre os outros, era a vantagem de estar só e poder pensar e fazer o que quisesse.

                    Patti Smith disse que eu era Rimbauld em outra encarnação. Não sei se ela está certa ou errada, mas, é claro, Patti sabe um monte de detalhes profundos dos quais posso não estar consciente. Ela pode estar ligada em algo que pode estar um pouco além de mim. Conheço pelo menos uma dúzia de mulheres que me dizem que forma a Rainha de Sabá. E conheço uns poucos Napoleões e duas Joanas D´arc e um Einstein.

                                                             O Tipo Feminino

     Sempre fui atraído por certo tipo de mulher. É a voz, mais do que qualquer coisa. Ouço primeiro a voz. É este som que eu ouvia quando estava crescendo. Quando tudo parecia oco e vazio, eu ouvia durante horas as Staple Singers. É este tipo de canto gospel. Ou a voz dos Crystals, de Clyde King, de Memphis Minnie, este tipo de som. Há algo nesta voz que quando a escuto paro o que estou fazendo, seja lá o que for. Um corpo é um corpo. Uma mulher pode ser surda, idiota,mutilada e cega e ainda possuir alma e compaixão. É isto que importa pra mim. Dá pra ouvir na voz.

                                                        Quem você gostaria de entrevistar?

                                   Um monte de pessoas que não estão vivas: Hank Williams, Apollinaire, José da bíblia, Marilyn Monroe, Paulo Apóstolo, talvez John Wilkes Booth ( o que matou Abraham Lincoln), talvez Gogol. Eu gostaria de entrevistar pessoas que morreram deixando atrás uma grande confusão não resolvida, que deixaram por séculos as pessoas especulando. Falando de gente viva, quem há para entrevistar? Fidel Castro? Gorbatchev? Reagan? O estrangulador de Hillside? O que é que eles têm a dizer? Eu não me importo com o destino do homem mais rico do mundo. Eu sei qual é a sua recompensa. Eu gostaria de deixar em seu lguar qualquer pessoa que tenha feito um trabalho que eu admiro. Não forço muito para saber como é que as pessoas chegaram no que chegaram. Assim, o que resta? Apenas o cotidiano de alguém. Coisas como: "Porque é que você não come peixe?" Isto realmente não me daria respostas para coisas sobre as quais medito.

                                                Pessoal ou impessoal
                         
                  Uma vez eu li um livro de cartas de Nataniel Hawthorne para uma garota e elas eram extremamente privadas e pessoais. Não senti que havia qualquer coisa minha nas cartas, mas pude me identificar com o que elas diziam. Muito de mim cruza minhas canções. Eu escrevo algo e digo a mim mesmo: posso mudar isto, posso tornar isto tão pessoal. Em outras ocasiões digo: não vou deixar isto num nível tão pessoal, e se alguém quiser fuçar na letra e fazer sua cabeça sobre que tipo de cara eu sou, isto é com ele. Outras vezes penso assim: acho que vou disfarçar isto. Por que é que vou querer que alguém pense sobre o que estou pensando, se não é para seu benefício?

                                           Tipos interessantes

                   Miles Davis é minha definição de um cara cool.  Eu adorava vê-lo em pequenos clubes tocando seus solos, virando as costas para o públicom abaixando o trumpete e saindo do palco para deixar a banda rolare voltar no final para tocar algumas notas. Eu fiz isto em alguns shows. As pessoas pensaram que eu estava doentem, ou algo assim.
      
                 O último disco que comprei foi  de Lucille Bogan. Era uma cantora de blues da qual tinha ouvido falar, mas não sabia que gravava. Não compro muitos discos contemporâneos. Não fui à loja comprar o disco pessoalmente. Conheço alguém que trabalha numa loja na cidade e telefonei para ele pedindo para separar o disco. Não, não fui buscá-lo, mas alguém o fez.

                Tenho um bom entendimento com todas as mulheres que estiveram em minha vida, quer eu as veja ocasionalmente ou não. Temos ainda as melhores das amizades.


                                                     Eu quero fazer um filme

              "Tight Connection to my Heart" é uma música muito visual.  Eu quero fazer um filme sobre ela. Não acho que ele será feito. Acho que vai ficar pelo caminho, mas, de todas as músicas que já escrevi, esta é a que tem personagens que podem se identificar com ela. o que quer que isto queira dizer. Eu não sei. Talvez eu esteja tentando torná-la mais importante do que é, mas vejo pessoas nela.

                                                 A censura nos discos

            Não acho que a censura se aplica a mim. Se aplica mais aos artistas da parada de sucessos. As pessoas que gravam hits podem estar preocupadas com ela, mas eu não tenho o tipo de discos nos quais deva me preocupar com o que digo. Vou escrever qualquer velha canção que me der na telha. Eu não compro nenhum desses discos, e nem mesmo gosto da maioria dessas músicas. Não me importaria se as músicas que tocam no rádio recebessem este ou aquele tipo de censura. Mas não acho que isso seja certo. Sou oposto à censura. Acho que qualquer música que você ouve pode ser ouvida de um ponto de vista diferente do que ela é. Há anos que as pessoas acham coisas em minhas músicas.


                     As melhores canções


          As melhores músicas que você escreve são as músicas sobre as quais você nada sabe. São um escape. Eu não faço muito isso, talvez porque seja mais importante lidar com o que está acontecendo do que colocar-se num lugar onde tudo que se pode fazer é imaginar alguma coisa. Se você pode imaginar algo e não teve aquela experiência, o que é normalmente verdade é que alguém já passou por ela e vai se identificar.

           Na verdade estou pensando nas histórias de Edgard Allan Poe. Se você pensar sobre sua vida, vai saber que ele na verdade não experimentou nada do que escreveu. Mas algumas histórias fantásticas saíram de sua imaginação. Como se pensasse: "Aqui estou eu encalhado nesse emprego do qual não consigo sair. Trabalho como funcionário público, e o que vou fazer depois? Odeio esta existência." Daí o que ele faz? Senta-se no sotão, escreve uma história e todo mundo acha que isso significa que ele é um cara estranhíssimo. Não, eu não acho que isto seja uma forma ilegítima de tratar as coisas, mas aí você pensa em alguém como Herman Meville, que escreve a partir da experiência, como em Moby Dick. Acho que há um tanto de fantasia no que escreveu. Dá para vê-lo cavalgando numa baleia? Eu não sei. Eu nunca fui para a faculdade fazer curso de literatura. Posso apenas tentar responder a estas questões porque supõe-se que eu seja alguém que conheça algo sobre escrever, mas a verdade é que não entendo muito disto. De qualquer maneira, eu não sei o que há para se saber sobre isto.

             Comecei a escrever porque já estava cantando. Acho que isto é uma coisa importante. Comecei a escrever porque as coisas estavam mudando o tempo todo e havia necessidade de se escrever uma certa canção. Comecei a escrevê-las porque queria cantá-las. Se elas não estivesse escritas, não teria começado a escrevê-las. Não é algo para o que tivesse me preparado, mas cantei muitas músicas antes que compusesse alguma. Acho que isso também é importante.

 
                                       Orgulho, pra quê?

                  Nunca consegui perceber a seriedade no orgulho. As pessoas falam, agem e vivem como senunca fossem morrer. E o que é que elas deixam para trás? Nada a não ser uma máscara.


   Baixe:

   Bringing it all back home (1965)


   Modern times (2006)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Kundaline- Terror Oficial (2006)



                          O Kundaline surgiu no final da década de 90 em Goiânia e fez parte da história geração Cantoria da cena HC de Goiânia, juntamente com bandas como Ímpeto, Élet, Self,C(h)oice, Against, OSNI e Corja, só pra citar as que duraram mais tempo. Lançaram uma demo em 1999 e desapareceram no limbo. Apesar de seus integrantes continuarem ativos na cena nos anos seguintes a banda só voltou em 2006, fez alguns poucos shows e lançou esta demo. A boa qualidade das composições provam que este novo final foi prematuro. Terror oficial possui 6 faixas de hardcore puro com melodias cantáveis, porém bem longe daquela safra nojenta de franjinhas e munhequeiras que assolou a década de 00. A formação da banda nesta gravação era:
André Alemão (guitarra) Renato Erl (vocal), Denny César (baixo) e Fabrício Guimarães (bateria).


Eis aqui o release oficial do EP feito pela banda, que dá pra mostrar muito bem a determinação e a atitude política da banda ao mostrar um dos episódios mais manipulados (pela mídia, políticos e polícia) e vergonhosos da nossa história local recente, os conflitos no Parque Oeste Industrial e o massacre do Sonho Real, ocorrido no começo de 2005. Com certeza esse tipo de atitude está em falta em nossa cena Hardcore e, essas palavras podem fazer muito sentido àqueles que pretendem questionar nossa realidade social:

Em fevereiro de 2005, Goiânia foi palco de uma luta entre o movimento social de sem-tetos e o poder público, que representava um proprietário de terras desocupadas e constitucionalmente sem função social. Além deste problema, soma-se o fato de que o proprietário não pagava impostos sobre estas terras urbanas há décadas. Os ocupantes exigiam que a invasão fosse regulamentada pela prefeitura, nos critérios da lei. Porém, o poder público municipal e estadual agiu defendendo os interesses do proprietário, e mesmo contrariando a Constituição Federal e as leis municipais, optou pela desocupação do terreno. O movimento social, que já era organizado e politizado, resolveu resistir. Por este motivo, a lei o criminalizou e a mão pesada e armada do Estado se fez sentir: extrema violência no processo de desocupação, ferindo qualquer código de direitos humanos. Excessos por parte da PM de Goiás, prisões arbitrárias, execuções de ocupantes pertencentes à invasão, e a distorção da lei em prol de quem detém poder econômico. Além de pesada investida da mídia local contra a mobilização popular deste caso. Este fato, histórico para a cidade, ficou conhecido nacionalmente por “caso Parque Oeste Industrial”, segundo a mídia. Para os ex-ocupantes, desmobilizados pelo Estado e cooptados pelo pseudopopulismo, o “Sonho Real”, como chamavam a ocupação, se transformou num terrível pesadelo de descaso, indiferença e dor. As falsas promessas políticas (Pai dos Pobres), a decadência de um modelo partidário (Estrela) e a desilusão frente à impotência para uma real intervenção no processo (Casa) marcam as opiniões que a banda formulou a respeito deste tema, que é a base do trabalho “Terror Oficial”.

Ademais, outros temas aparecem, como a descrença no espírito humano (O lago), a crença na ação direta como forma de transformação pessoal e coletiva (Você constrói o seu mundo) e a subjetividade da função da música como forma de expressão (Atrás daquele tempo). Temas estes que não deixam de se relacionar ao restante do trabalho, mesmo que de forma indireta.

Obviamente, o que escrevemos aqui são leituras coletivas de um grupo específico. Formule a sua através de boa pesquisa e senso crítico. Temos certeza que em diversos pontos haverá divergências, e também concordâncias. Se este processo “dialético” acontecer de forma madura, estaremos plenamente satisfeitos e nosso objetivo com o trabalho estará cumprido.

Um abraço, paz e saúde. Você constrói o seu mundo! Kundaline, julho de 2008.

          TRACKLIST:

      1. Pai dos pobres
      2. Estrela
      3. Casa
      4. O lago
      5. Você constrói o seu mundo
      6. Atrás daquele tempo

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Evento: 21 anos de Spiritual Carnage: Masters of Hate Tour

MASTERS OF HATE EM FÚRIA DOBRADA!!

Lamentamos muito a tragédia ocorrida em Sergipe com os integrantes da banda AFTER DEATH. Mesmo assim, a tour MASTERS OF HATE com os 21 anos do SPIRITUAL CARNAGE não pode parar! Segue com muito mais ódio!
Seguimos fortes e com algumas alterações no line-up e local do evento. Os preços continuam os mesmos com uma comodidade ao público maior! Não vacilem!

LOCAL: Martim Cererê
DATA: 13-02-10
HORA: 19:00
PREÇOS: R$ 25, 00 antecipado e R$ 30 na hora.
PONTOS DE VENDAS: Woodstock Bar, Kuka Bar, Hocus Pocus e Revistaria 87 (Empório 87, entre a Fiction e a praça do Cruzeiro).
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- MASTER (USA)
- SPIRITUAL CARNAGE (GO)
- PREDATOR (RS)
- DEVICE (DF)
- RESSONÂNCIA MÓRFICA (GO)
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Acessoria de imprensa do evento: media@deathtollrecs.com
DEATH TOLL RECORDS.

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Divulguem para o maior número de pessoas que puderem! RIP After Death!
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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Spiritual Canage- Demo 97 (1997/2004)



        Tributos, Homenagens, Respeito.....
        Nada disso é suficiente pra retratar a importância dessa banda. A história do Spiritual Carnage se confunde com a história do underground goiano, não, se confunde com a história do underground brasileiro, pior, se confunde com a história do Death Metal mundial! 

       Formada em 1989 pelo baixista e vocalista Hemar Messiah o Spiritual Carnage segue na ativa por 21 anos. Sem nunca ter feito concessões midiáticas ou qualquer ato que afaste a banda do verdadeiro underground, a banda emana atitude e peso por onde passa, tocando nesse tempo todo em qualquer buraco sujo que os chamassem. 

      Eu particularmente conheci a banda em 1995 no lendário e menosprezado DCE-UFG e como fã confesso de Death Metal old school posso dizer que esta demo de 97 do Spiritual está lado a lado com clássicos do gênero como Altars of Madness, Tomb of the Mutilated e Slowly we Rot. A gravação logicamente nem chega aos pés dos discos citados, mas o que importa? O que mais fascina no underground é justamente a capacidade de se ouvir boa música e de qualidade não interessando se ela foi gravada pelo Rick Rubin ou no quintal do guitarrista da banda. Para um verdadeiro fã de música extrema isso pouco importa.

      Demo 97 é o terceiro trabalho do Spiritual Carnage, e foi lançado em fita cassete no já longíquo ano de 1997 e, com muito orgulho, relançada em CD-r em 2004 pela TBonTB. Foi gravada em 36 canais no Estúdio Zen em Brasília, DF (já que naquela época não existia estúdio de gravação decente em Goiânia, muito menos pra som pesado!) e a formação da banda era a formação clássica do SC: Hemar (baixo/vocal), Alexandre Greco (guitarra), Gilberto Black (bateria), Lara Peres (teclado) e Marcos Rogério (guitarra).

      Em cada uma das cinco faixas pode-se perceber toda a crueza e maldade caracterísiticas do Death Metal.  "Pre Destined Death", "Black Folded" e "Sheltered in Flames" são clássicos absolutos até hoje entoados nos shows da banda. Com certeza Demo 97 é um pouco do que há de melhor na história do metal nacional da década de 90. Alguém duvida? Baixa ai e me crucifica de cabeça pra cima como um maldito cristão, se eu estiver errado!

Aliás dia 13/2 o Spiritual comemora seus 21 anos de carreira juntamente com a lendária Master no Martim Cererê, larga mão de grito rock e vai bater cabeça cum satanais HYPAZIADA de Goiânia.... 


TRACKLIST:

1 Black Folded
2 Crystal Lord
3 Lodger of the Flesh
4 Sheltered in Flames
5 Pre Destined Death

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010


Manifesto Coprófago
O que entendemos por excremento? O sentido mais específico da palavra é a expulsão dos dejetos fecais de qualquer ser. A merda, as fezes, o cocô são nomes populares de tudo o que é classificado como resto de metabólito. Merda é sinônimo de fedor, de repulsa, asco, nojo, coisa maldita e malfeita.
Mas, por que essa ênfase nas características negativas da merda? Não possuiria ela um lado bom que a redimisse de todos os seus aspectos repulsivos? Sim, claro que sim. A merda é o adubo, a merda é a matéria orgânica que se colocada à raiz da árvore, alimenta a planta e a faz crescer e frutificar. A merda é o início do alimento e o final dele. A merda se alia ao chão para que a humanidade e as outras espécies não pereçam. Então o que classificamos como sujo e infecto é na verdade o que nos dá vida e energia.
E logo se a merda que é uma coisa renegada tem a sua (grande) fatia de participação na criação e na sobrevivência, tudo o que achamos que é essencial para a criação e para a sobrevivência tem a sua fatia de asco, de repulsivo, de fedor, de nojo. Tudo que o ser humano classifica como bom, como arte, como gostoso, como essencial para a vida e para a invenção tem o seu lado ruim, o seu lado manipulador, o seu lado merda. Desde que nascemos somos educados por uma família opressora, por um Estado opressor, por uma escola opressora e na maioria dos casos por uma religião opressora. Este é o nosso lado verdadeiramente merda e o q a sociedade define como merda na verdade pode ser prazeroso; o q ela diz ser supremo na verdade é grande merda. A sociedade é uma merda, tudo que ela produz é merda. Logo você ingere fala e ouve merda. Olhe ao seu redor, os meios de comunicação todos tentam passar um sistema fétido de idéias, algo de podre sempre está no ar, nos governos, na rede de saúde, no caráter das pessoas se esconde a verdadeira merda. A sociedade é merda e tudo que ela produz é grande merda. Logo você ingere, vê, ouve e fala merda. Quando nascemos somos obrigados pela sociedade a seguir padrões de comportamento que reprimem a merda. A merda e o chão. Mas verdadeiramente somos a merda. Tudo que somos devemos ao chão e à merda. Cultuar a merda é a forma mais caricata de ser feliz. Cultuemos a merda e o chão. Cultuemos as nossas mais intrínsecas origens. E a forma mais lógica de cultuarmos a merda é começarmos uma revolução social que nos faça refletir onde está escondida a verdadeira merda, o verdadeiro nojo, o verdadeiro asco: num nobre produto do metabolismo ou nas ações/construções sociais que nos cercam. Isso é a coprofagia. Essas são as bases do Manifesto Coprófago. Comamos a merda. Assimilemos a merda . Separemos a merda metabólito da merda humana, façamos uma reconstrução de valores. O que classificamos como merda hoje, que seja o big bang do amanhã e o que classificamos como bom hoje, como valor, como indispensável que seja enterrado, que seja despojado num buraco no chão.

Por Priscylla Alves

há muitos anos antes
há muitos séculos atrás
homens já trabalhavam como animais
há muitos anos atrás, há milênios de antecedência
homens trabalhando com força e paciência
não reclamavam dor, não havia clemência
os grandes imperadores mergulhados na demência
há muitos anos antes, muitos séculos atrás
se trabalhava como nunca se trabalhou jamais
refinados eram os requintes de crueldade
dentro do coração de cada cidade
roma decantada, a paris iluminada
todas erguidas com gotas salgadasde suor
da força do homem melhor.

POr PRiscylla